“Quando a tristeza perde a fala, sibila
o coração, provocando de pronto uma explosão” (Shakespeare)
Esses
últimos dias foi inevitável pra mim não pensar sobre nossa finitude, com esses pensamentos,
os diversos ensinamentos que tive, tanto no meio acadêmico como na própria
vida. A impermanência.
Impermanência:
relativo a impermanente, que não é permanente, que é instável, inconstante.
(Dicionário Aurélio)
Todos
nós seres humanos desde muito cedo aprendemos isso: Nenhum de nós “nasceu pra
semente”. Ouvimos ainda que “só não tem jeito pra morte”.
Mas,
se essa é a única certeza que temos à respeito da vida (ou do fim dela) por que
evitamos tanto este assunto?
É
de certo que a morte nos amedronta, nos aterroriza. Tanto que poucas pessoas
conseguiram ler esse post até o fim.
Acontece
que fugimos a todo custo dessa temática, sobretudo quando nos vemos imersos sob
ela. Fugimos da perda. Essa perda que nos é imposta no fim da vida e que é tão
dolorosa como a perda do nascimento, quando nos retiram do nosso ambiente de
outrora, o ventre de nossas mães.
O
que assistimos constantemente são cientistas buscando meios de evitar ou postergar
esse fato que é o único fato certo para todos nós.
Nascemos
e sabemos que um dia iremos morrer. Uns mais cedo que outros, um de forma mais
inesperada que o outro, mas de uma forma ou de outra irá chegar “o anjo da
morte” e nos levará pra um lugar que não conhecemos.
Tudo
se torna ainda maior quando essa finitude é um fato que recai na vida de quem
amamos, de quem somos apegados. Parece até que somos mais apegadas à vida dos
outros do que à nossa própria. Não queremos nem pensar em ver quem amamos
partindo do nosso convívio.
“A intensidade
do luto é proporcional à força do apego” (Edirrah Soares & Maria Aparecida
Mautoni)
Viver
o luto nunca é fácil, ele nunca é fácil de ser elaborado. Antes da acomodação,
da sua elaboração, há o sofrimento da transição. Algo nos foi tirado. As
pessoas (ou animais, ou objetos, etc) são incorporados em nosso ego de modo tão
forte (se assim posso dizer) que, realmente, quando nos são “tiradas” é como se
tirassem um pedaço de nós. Parecemos incompletos.
Segundo
a Psicóloga Estela Noronha (para o site Rit), o luto é um processo que ocorre
imediatamente após a morte de alguém que amamos. Não é um sentimento único, mas
um conjunto de sentimentos e emoções que requer um tempo para serem digeridos e
resolvidos que não pode ser apressado, cada um de nós tem um “tempo emocional”
que deve ser respeitado.
O
que não se deve, de forma alguma, é evitar a dor da perda. “A dor é suportável quando conseguimos
acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe.” (Allá
Bozarth-Campbell)
O
luto nos envolve de forma total, ou seja, temos reações físicas, emocionais,
sociais, comportamentais e até espirituais.
Pude
ver isso nas mais de 24 horas em que passei acompanhando uma pessoa que amo no
hospital. Ela hoje está bem. Mas os pensamentos e sofrimentos que tive só pelo
fato de pensar em sua finitude e o que pude ver nas pessoas que perdiam seus
entes queridos deixam claro essa
devastação que o luto causa.
Nossa
alma parece acompanhar o estado do nosso corpo: Frio. Frio pelo ambiente
hospitalar que já é assim, principalmente à noite quando a temperatura cai
alguns graus, frio como a forma impessoal que os médicos precisam lidar com os
casos ali apresentados, frio como aquele frio que dá na barriga cada vez que
somos chamados para saber como está a pessoa que acompanhamos.
Mas a única forma de enfrentar o luto é vinvendo-o. Colocando aquele ente querido que se foi em outro patamar, tendo uma nova relação com ele, um novo vínculo. O sofrimento passa a ser menos intenso e assim retomamos nossa vida.
Bom
seria se fôssemos todos infinitos. Permanentes. Por outro lado, parece que só
percebemos a importância das pessoas quando essa finitude chega. Portanto, o
que nos resta é viver. Viver a nossa vida. Viver o luto que nos é imposto.
Viver mais intensamente os momentos com as pessoas a quem somos apegados, a
quem amamos.
Vó, te amo e que bom estar tudo bem contigo.
Abraço forte e acolhedor em todos!
Abraço forte e acolhedor em todos!

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