É
de certo que passamos por diversas evoluções com o passar dos tempos, dentre elas
evoluções culturais, tecnológicas,
sociais e até mesmo, por que não dizer, afetivas.
Dentre
essas mudanças está o “bendito” (talvez maldito?) ficar.
Vivemos
em uma sociedade com um apelo tão grande ao consumismo, que praticamente tudo
está voltado para o prazer, para a satisfação do desejo, e tudo isso instantâneo,
rápido. E quando falo do desejo gosto de lembrar do que diz o Dr. Flávio
Gikovate quando diz que o desejo supõe um objeto externo do qual o indivíduo
quer se apropriar, após obter aquele objeto o desejo é saciado e aí perde-se a
graça.
O
que tem a ver o desejo com o ficar?
Antes
de falar sobre isso vamos lembrar do que aconteceu na década de 60, mais
precisamente 18 de agosto de 1960, quando começou a distribuição da primeira pílula
anticoncepcional, o Enovid-10. A pílula foi desenvolvida por dois médicos
americanos chamados Gregory Pincus e
Carl Djarassi, incentivados pelas feministas (por que será? Hehehe) Margaret
Sanger e por Katharine McCormick, que financiou as pesquisas.
A
invenção da pílula teve um grande impacto social numa sociedade que via o sexo
fora do casamento de forma pecaminosa e na qual este mesmo sexo deveria ser
visto como meio de procriação, ou seja, tirava das mulheres o peso da gravidez
indesejadas e permitia o sexo fora do casamento por parte destas, sem o medo de
gravidez, os casais passavam a fazer sexo pelo prazer. Os estudiosos afirmam
que foi uma das prováveis causas da revolução sexual dos anos 60.
Daqui
a pouco explico porquê falei sobre esse momento da história. Por agora vamos
nos ater ao ficar...
Então, o “ficar” se configura em
uma relação, segundo os próprios adolescentes, num relacionamento onde não há
compromisso, exclusividade, e pode durar 2 ou 3 dias. Nele estão presente
carícias, beijos, abraços e, eventualmente, relações sexuais. Em outras
palavras, como diz Mariano (2001) “predomina no ‘ficar’ a sensorialidade, a brevidade do
contato, a ausência de exclusividade e de compromisso, a descartabilidade do
outro e a não-obrigatoriedade da presença de sentimento.”
Fruto de uma sociedade consumista
e imediatista, o “ficar” reduz o indivíduo a um objeto. Um bem de consumo.
Descartável. Feito para o bel prazer do outro. E é interessante perceber essa
relação.
Hoje, compramos um celular (por
exemplo) que está na moda, tela de 4”, processador quad core, câmera de 8 MP, câmera
frontal (selfie é o que importa hehehe) de 3 MP, e assim por diante. Acontece
que o celular “melhorzinho” já está pronto e será lançado daqui a 3 meses. Ficamos
na expectativa e, quando ele chega nas prateleiras o que acontece?
Ora, aquele celular que já era
bom, maravilhoso, meu objeto de amor, onde “minha vida” está, é substituído por
este “novo” pois o seu processador é superior é octa core, tem 13 MP de câmera e
a frontal é de 5 MP e ainda é panorâmica, mas não é só isso, ele tem também
bloqueio pela minha digital.
Consegue perceber a relação? Não?
Eu desenho...
O rapaz (ou a moça), se encanta
pela moça (ou o rapaz) por que tem tais atributos que para ele (ou ela) são
interessantes. Como é “preciso” satisfazer o desejo imediatamente vai lá e “fica”.
Acontece aqui algo diferente do celular, pois o celular demorará 3 meses para
aparecer outro e pessoas diferentes tem milhares e tão logo se encontre outra
pessoa com um atributo a mais ou de maior relevância para aquele rapaz (ou
moça) aquele de outrora é descartado, já não serve, satisfez por um tempo (dois
ou três dias ou uma semana) mas agora é preciso experimentar algo novo.
A palavra “ficar” dá uma idéia de
permanência, sugerindo uma fixação em um lugar, nos relacionamentos essa mesma
palavra significa algo passageiro, fulgaz.
Mas, o que tem a ver isso tudo
com a criação da pílula?
Acontece que a sua criação deu “início”
a uma emancipação sexual. Antigamente ficar com uma garota e ter relações
sexuais com ela gerava um certo repúdio da sociedade para com aquela mocinha. O
rapaz não. O rapaz era o garanhão. O danadinho. Mas a pílula chega e começa a
revolução sexual, a “guerra” dos sexos. As mulheres agora mostram, ou tentam,
de todas as formas que, se um homem pode, uma mulher também pode e isso em
todos os âmbitos da sociedade.
Essa emancipação permite que as
relações sexuais possam existir fora do casamento sem correr o risco de uma
possível gravidez fora de hora. No início isso continuava sendo “feio”, mas com
o tempo isso é incorporado e de certa forma a sociedade desiste de lutar e faz
o que é mais fácil: Vamos distribuir camisinha e alertar sobre DSTs para que
não tenham problemas futuros. E isso basta.
Com o tempo passando as relações
vão mudando. O casamento deixa de ser visto como algo para durar a vida toda e “se
não está dando certo” é melhor cada um seguir o seu caminho. Perceba aqui como
a descartalização acaba também por solapar do indivíduo o desejo de resolver
problemas, frustrações, conflitos. Se não ta bom joga fora! E assim foi-se...
Mas
o que é mais interessante é que, segundo uma pesquisa realizada com alguns
adolescentes a respeito do “ficar”, este não foi citado como o tipo de
relacionamento preferido. A maioria ainda prefere o “namoro”. A diferença? 26%
dos meninos e 9% das meninas declararam preferir ficar, enquanto 41% dos
meninos e 72% das meninas declararam preferir o namoro. (JUSTO, 2005)
Mas
se a preferência é o namoro por que a maioria, ainda assim, “fica”? Não seria
resultado de um modismo? Será talvez que esses adolescentes, por medo de ser “diferente”
não se deixam levar pela “maioria”? O que acontece?
Não
estou aqui para criticar mas, quem sabe, gerar uma reflexão.
O “ficar”
não estará sendo um mecanismo de defesa do jovem atual para que não tenha que
se ver tendo que resolver conflitos, aceitar o outro, compreender as
diferenças, impedir que se tenha o confronto de idéias, entre outras questões
que estão ligadas ao convívio mútuo?
Um
forte abraço...

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