quarta-feira, 1 de abril de 2015

Saindo da escuridão...

Imagine um grupo de pessoas que habita o interior de uma caverna subterrânea, estando todas de costas para a entrada da caverna e acorrentadas pelo pescoço e pés, de sorte que tudo o que vêem é a parede da caverna.
Atrás delas ergue-se um muro alto e por trás desse muro passam figuras de formas humanas sustentando outras figuras que se elevam para além da borda do muro. Como há uma fogueira queimando atrás dessas figuras, elas projetam sombras na parede da caverna. Assim, a única coisa que as pessoas da caverna podem ver é este “teatro de sombras”. E como essas pessoas estão ali desde que nasceram, elas acham que as sombras que vêem são a única coisa que existe.
Imagine agora que um desses habitantes da caverna consiga se libertar daquela prisão. Primeiramente ele se pergunta de onde vêm aquelas sombras projetadas na parede da caverna. Depois consegue se libertar dos grilhões que o prendem. E o que acontece quando ele se vira para as figuras que se elevam para além da borda do muro?
Primeiro, a luz é tão intensa que ele não consegue enxergar nada. Depois, a precisão dos contornos das figuras, de que ele até então só vira as sombras, ofusca a sua visão. Se ele conseguir escalar o muro e passar pelo fogo para poder sair da caverna, terá mais dificuldade ainda para enxergar devido à abundância de luz. Mas depois de esfregar os olhos, ele verá como tudo é bonito. Pela primeira vez verá cores e contornos precisos; verá animais e flores de verdade, de que as figuras na parede da caverna não passam de imitações baratas. Suponhamos, então, que ele comece a se perguntar de onde vêm os animais e as flores. Ele vê o Sol brilhando no céu e entende que o Sol dá vida às flores e aos animais da natureza, assim como também era graças ao fogo da caverna que ele podia ver as sombras refletidas na parede. Agora, o feliz habitante das cavernas pode andar livremente pela natureza, desfrutando da liberdade que acabara de conquistar. Mas as outras pessoas que ainda continuam lá dentro da caverna não lhe saem da cabeça. E por isso ele decide voltar. Assim que chega lá, ele tenta explicar aos outros que as sombras na parede não passam de trêmulas imitações da realidade. Mas ninguém acredita nele. As pessoas apontam para a parede da caverna e dizem que aquilo que vêem é tudo o que existe; é a única verdade que existe; é a realidade. Por fim, acabam matando aquele que retornou para dizer-lhes um monte de "mentiras". 

Pois é! Acredito que esta adaptação da Alegoria da Caverna, escrita por Platão na obra A República (livro VII), é como uma metáfora do que acontece com aqueles que buscam a psicoterapia ou uma forma de conhecer-se mais profundamente, de ir além.
O fato é que, aqueles que buscam um auto-conhecimento dificilmente conseguiram retornar à forma de antes. O fruto do conhecimento obtido é transformador, libertador. É como diz Jo 8, 32: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará!”.
E é aí que se situa a importância do auto-conhecimento, do aprofundamento em si mesmo. Porque, à medida que você se conhece, você passar a ter uma visão diferente das coisas, dos outros, do mundo que te cerca.
É possível, a partir daí, exercer a empatia tão necessária, porém tão desprezada, nas nossas relações, porque passamos a ver as situações “com outros olhos”.
Os pré-conceitos deixam de existir, a caridade começa a se fazer presente, começamos a perceber que as coisas não são as coisas em si. Tudo tem perspectivas. Não dá pra ver as coisas apenas por uma ótica. A vida é muito mais do que aquilo que nos contam ou o que vemos. É necessário sentir as coisas, viver essas coisas, perceber.
Quantos de nós não estamos tão envolvidos nas coisas que nos esquecemos de perceber as pessoas. Olhamos mas não vemos o outro. Não o sentimos. Não entendemos suas ações.
Muitas vezes um choro é um pedido de socorro. Mas algumas vezes o sorriso forçado é este mesmo pedido. Tudo dependerá da nossa sensibilidade.
A nossa sociedade é permeada de violência, crueldade, e muitos outros comportamentos e ações que tentam de todas as formas nos englobar e tornarmos iguais. Mas, uma vez que conhecemos uma outra perspectiva, um olhar novo e mais apurado, um olhar de verdade, é possível nos permitirmos ser tomados por essas realidades? É realmente interessante ser aprisionado pela caverna atual em que vivemos que pode ser representada pela televisão e suas mentiras, enganações e manipulações?
Não podemos pensar e agir como seres evoluídos de fato? Ou iremos nos deixar levar pela massa?
Acredito que o cerne de toda a decadência (alguns chamam de evolução) em que vivemos está aí: no querer ser igual, independente de como seja, quando o diferente é minoria, embora seja o melhor caminho.

Um forte abraço cheio de paz!

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